terça-feira, julho 25, 2023

ALMA DE GATO

Vovô levou-me nos braços para mostrar a fazenda que havia comprado. Foi lá que vovó fora criada e eu logo de início gostei muito. Vovô todo orgulhoso disse me:
- filho, tudo isso agora é seu!
Colocou-me no chão e eu comecei a correr e explorar cada canto do casarão. Eu fiquei maravilhado com tudo, com tantos lugares, quartos, salas, varanda, cozinha, fogão a lenha enorme, banheiro com água quente aquecida e havia até uma banheira. As janelas de todos os cômodos mais pareciam portas de tão grandes e todas haviam duas partes a parte com vidros (vidraças) e a outra de madeira maciça.
E lá fora, havia um mundo para explorar, pomar, riacho, cachoeira, curral, mangueiral (onde criavam os porcos soltos), a tulha (armazém de cereais) o paiol (celeiro), nossa havia muita coisa a explorar e eu era praticamente sozinho, pois eu tinha apenas dois aninhos.
O tempo foi passando e eu cada vez mais gostando daquela fazenda, a vida lá era uma festa todos os dias, levantar cedo e observar a lida do meu avô, da minha avó e dos camaradas era muito divertido.
Eu estava sempre no meio dos adultos e gostava de ouvir estórias!
Sempre pedia para um camarada do vovô chamado Osmar para contar as suas estórias, mesmo que fossem repetidas.
Havia um pássaro que todos os dias era visto no alto de uma árvore próximo ao curral chamado Alma de Gato. Eu sempre corria para observar aquele pássaro quando ele aparecia por lá mas logo batia asa e desaparecia.
Meus olhos brilhavam quando avistava uma Alma de Gato só de imaginar o tesouro, as pedras preciosas e os diamantes que escondia em seu ninho, o qual ninguém consegue encontrar.
Osmar e vovó também contava que esta ave é guardiã de um tesouro imenso e que fica muito bem escondido n´alguma serra e que ninguém ainda conseguiu encontrar pois ele é muito esperto e zeloso.
Gostava de acordar bem cedo para apreciar a ordenha das vacas, tomar leite quentinho tirado na hora. Vovô já preparava logo uma caneca de alumínio para que eu bebesse o leito logo cedo.
Após a ordenha, cada qual saia para seus afazeres e eu corria lá para perto da árvore onde logo que o sol começasse a aquecer traria com seus raios a enigmática Alma de Gato e eu ficava a espiar lá de baixo a ave sorrateira no topo da árvore! Sonhava por descobrir seu esconderijo, mas sempre acabava perdendo-a de vista.
Assim passava a maioria dos meus dias de infância enquanto ficava com meus avós.
A Alma de Gato já não mais aparece por lá, pois sua árvore fora há muito cortada e meu sonho de encontrar aquele tesouro se perdeu...
Hoje quase nada mais é como antes, basta um vôo virtual pelo Google Earth para ver que a Fazenda da Mata já não mais existe, ah que tristeza!
A Alma de Gato para longe voou carregando seus tesouros e os sonhos daquela criança.

sábado, maio 01, 2010

UM ANJO CANINO - DUQUE

Duque, meu novo cão, era meu amigo inseparável, estava sempre ao meu lado. Era de fato muito, mas muito ciumento e não admitia nenhuma pessoa se aproximar de mim, principalmente tocar-me. Isto era com as pessoas de casa, mulher, filhos, vizinhos, com todos.
(Atacando minha filha de surpresa)
Certa vez minha filha estava em casa, veio visitar-me e estávamos no corredor conversando enquanto Duque nos espreitava. Ela já o conhecia e ele sempre se mostrou amigável. Mas de repente ela num gesto de me abraçar foi atacada pelas costas levando uma mordida na perna. Corri com ela para o pronto-socorro para procedimento médico para prevenir algo mais grave. Antes, porém, mostrei ao cachorro que não gostei repreendendo-o. Mais tarde tentei castigá-lo por isso, mas na verdade pensei na sua atitude, no motivo que o levou a agir assim. Para um cão isso nada mais foi do que uma atitude para proteger seu dono. Eu procurei manter Duque distante, em algum lugar seguro para que não atacasse ninguém principalmente quando estava se alimentando, ah... ai ninguém chegava mesmo próximo a ele, somente eu. Afinal instinto é instinto! Num certo dia, Duque encontrava-se na laje da garagem, de frente para a rua enquanto eu fui ao portão receber o carteiro. Abri o portão, sai até a calçada para receber a correspondência e então de repente percebi o vulto do cão que saltava em direção ao carteiro. Mal deu tempo de empurrar o carteiro para o lado e numa tentativa de conter o cachorro abraçá-lo. Fomos os dois para o chão e o carteiro mal conseguiu adentrar o portão da casa do vizinho e se esconder no corredor. Para Duque ele estava fazendo o seu papel de guarda, protetor, defensor de seu dono. Para o carteiro um grande susto e o alívio de ser salvo por encontrar o portão aberto e se esconder no corredor da casa vizinha. E para mim o alivio de ter protegido o carteiro e não ter podido proteger-me de levar um tombo e ter meus braços e pernas ralados no asfalto. Dias mais tarde estava eu trabalhando na construção desta nova casa quando de repente desequilibrei-me caindo de costa nos degraus da escada que levava ao andar inferior. Estava sozinho acompanhado apenas do Duque. Ao cair, bati as costas nos degraus e fiquei momentaneamente sem movimentos e com dificuldade de respirar. Não deu tempo nem de pensar no que fazer. Só percebi quando o Duque caminhava em minha direção seguido por dois senhores que trabalhavam na casa ao lado. Disseram então que a insistência do cão foi tantas que eles não pensaram duas vezes adentraram ao terreno, a casa onde eu estava e me encontraram. Felizmente não aconteceu nada de mais sério além de luxação e uma trinca de uma das vértebras. Mas lá estava meu anjo da guarda em forma canina zelando por mim!

DUQUE - UM NOVO AMIGO

Certa vez, recebi o telefonema de um cunhado indagando-me se eu gostaria de ganhar outro cão pastor alemão, não titubeei e disse claro que quero. Então combinamos o dia e à hora de ir ao local ver e pegar o cachorro.
Fui eu e meu cunhado numa perua Kombi em busca do cão a ser doado. Encontramos a casa e logo uma senhora veio nos atender e sabendo de nosso interesse pelo cão foi logo avisando, o cachorro é muito bravo, cuidado a gente não se responsabiliza, viu moço.
Eu concordei e pedi autorização para ir até o quintal da casa, nos fundos. A situação eu já conhecia, lá estava um lindo cão, de aparência pouco amistosa, nervoso e disposto a mostrar seus fortes dentes.
Da mesma forma que eu havia experimentado com o Rhoss, meu cão anterior que morrera enforcado, aproximei-me dele e estendi minha mão oferecendo um pedaço de pão que sua dona havia me dado. O pão em minha mão não lhe atraiu muito não, pois quanto mais me aproximava mais raivoso latia. A situação era a mesma que eu já presenciara, preso junto a um tronco de árvore com uma forte corrente ao relento devia estar ali há muito tempo sofrendo.
Não desisti e continuei tentando acalmar aquele cão apenas estendendo minha mão até que ele foi se acalmando, e até resolveu comer aquele pedaço de pão. Eu pacientemente aguardei por alguns minutos e depois continuei a me aproximar. Foi ai que percebi o animal já calmo e permitindo que eu acariciasse sua cabeça. Comecei a afagar seu pescoço e logo me encorajei a soltá-lo daquele tronco trazendo-o para junto de mim e num gesto convidativo a sair ao que fui correspondido.
Diante de todos que se escondiam num canto da casa, com as portas fechadas eu dirigi-me até ao veículo que estava em frente da casa e entrei e sentei-me no banco traseiro colocando o cão sentado ao meu lado o qual quase numa atitude de gratidão respirava ofegante, com a língua de fora, ora me olhando ora encarando as pessoas boquiabertas lá fora.
Assim nos despedimos de sua já ex-dona e seguimos viagem para casa. Acabava de ganhar um novo amigo, o Duque, e a felicidade estava estampada em ambos.

RHOSS - FIM TRÁGICO

Certa ocasião a minha família havia viajado e eu havia ficado só em casa, pois eu estava trabalhando e não estava de férias.
Foi num dia no final da tarde quando voltava do serviço que encontrei o portão de entrada entreaberto. Como sabia não haver ninguém em casa eu logo desconfiei de haver alguém dentro de casa, um ladrão.
Entrei pela lateral que levava ao corredor dos fundos onde o cão estava preso e soltei-o imediatamente.
Não precisei dizer nada, ele passou a minha frente subiu rapidamente as escadas e logo encontrou a porta da sala arrombada pela qual se adentrou a casa. Percebendo que ele havia encontrado alguém lá no interior da casa eu corri para a casa vizinha para ligar para a polícia.
Quando a polícia chegou encontrou apenas o fiel companheiro guardando a casa, postado na porta do quarto diante de vários pertences espalhados pelo carpete do quarto ao meio de filetes de sangue que se espalhava em direção ao terraço.
Logo o vizinho dos fundos chegou para avisar a polícia que ali já estava atendendo a ocorrência de que havia visto um indivíduo saltando para o terreno ao lado em fuga. O gatuno saltou cerca de quase quatro metros para fugir do cão policial.
Passado alguns anos por motivo de separação ao me mudar confiei a guarda da casa e da família ao fiel amigo canino. A partir daí, nossa convivência passou a ser esporádica quase não o via mais. Pouco tempo depois recebo a notícia de que o Rhoss havia morrido e a ex-mulher pediu para que eu fosse lá retirar o cachorro.
Chegando a casa naquele mesmo dia, fiquei estupefato com a cena vista, encontrei o meu amigo enforcado, dependurado na piscina que ainda estava sendo construída. Proposital ou não, mero acaso ou por algum outro motivo... lá estava o Rhoss dependurado na parede da piscina. Como estava em construção, havia as pontas de ferros em forma de garras na beirada da calçada e como o cão fora amarrado próximo a esta beirada ele deve ter escorregado e seu pescoço ficou preso a uma garra do ferro que certamente pegou a veia arterial levando-o a morte rápida.
Nada mais podia fazer a não ser levá-lo a colina e enterrá-lo junto às árvores e assim despedir-me daquele amigo inesquecível.

Rhoss, um policial acuado e acorrentado...

Início dos anos oitenta eu acabava de me mudar com a família para uma nova casa. Chegou ao meu conhecimento informação sobre um cachorro policial, um pastor alemão que estava sendo doado. Tratava-se de um animal feroz e que fora rejeitado até pela policia militar por se tratar de um animal já adulto, rebelde e bravo.
Eu não hesitei, era tudo que eu queria um pastor alemão. Quanto a sua braveza não me assustava. Procurei a casa que me indicaram e manifestei a vontade de conhecer e levar o cachorro. Fui alertado pelo proprietário que o animal era muito bravo e que ele não se responsabilizava caso eu fosse mordido. Eu afirmei de que isso não era problema, apenas que me deixasse conversar com o cachorro.
Aquele senhor convidou-me a entrar em sua casa, abriu a porta do quintal dos fundos e depois que eu entrei ele se afastou deixando-me lá sozinho.
Olhei para os lados e logo percebi o cão que rosnava e mostrava-se descontente com minha presença. Percebendo que estava acorrentado junto ao tronco de uma árvore dirigi-me em sua direção lentamente estendendo minhas mãos. Mostrando-se bastante irritado, mostrava seus dentes e toda a sua raiva.
Não me deixei ser intimidado e calmamente foi me aproximando e estendendo cada vez mais minhas mãos, até que comecei a tocar sua cabeça. Percebi que ele começou a acalmar, diminuindo sua raiva e silenciando. Em alguns minutos comecei a ouvir um novo tipo de som, um uivado abafado passando a um simples grunhido.
Percebi então que acabava de ganhar um amigo e logo me encorajei a soltar a corrente que o prendia naquele tronco e segurando-o pela coleira levantei e para espanto daquele senhor e dos que estavam na casa sai acompanhado daquele cão que balançava o rabo numa atitude de felicidade, de alegria.
Os anos que seguiram foram de muita alegria para ambos. Acabava de mudar para uma casa que estava construindo com uma linda família.
Rhoss adotou-me logo como seu dono e mostrava-se muito feliz, como meus filhos eram pequenos resolvi deixar o cão sempre preso e soltá-lo apenas quando estivesse junto em casa e assim fazia. De vez em quando o soltava e abria a porta de meu carro e levava-o comigo até a padaria ou outro lugar como companhia.
Éramos dois amigos, nos orgulhávamos um do outro. Isto era visível, estava estampado em ambos.

MELHOR AMIGO DO HOMEM - O CÃO

Quero deixar aqui registrado a minha concordância com as afirmações de que o cão é o melhor amigo do homem e de que há entre o cão e o homem uma ligação muito maior que podemos imaginar.
E de que dos animais, talvez o cão seja aquele que mais sintoniza com a mente humana. O cão assim como o homem é um ser extra-sensitivo, o cão por um lado permanece com estes instintos puros, incorruptíveis enquanto o homem pelo contexto em que vive já perdeu ou deixou adormecer boa parcela desta sua capacidade nata. É possuidor de uma sensibilidade inigualável capaz de sentir e pressentir coisas que escapam ao sentido humano.
Proponho-me aqui narrar as minhas principais experiência com O Cães, os cachorros, como dizia São Francisco de Assis, “nossos irmãos” (de quatro patas).
Sessenta anos já se passaram, mas a lembrança de meu primeiro amiguinho não. Norte era o cão que vivia na fazenda de meus avós. A raça dele não me lembro bem. Apenas me recordo que era um cão robusto, dócil, acho que pode até ter sido um lavrador, ou parecido com esta raça. Sei que era um cão da fazenda acostumado a ajudar meu avô na lida com o gado e nas horas vagas meu companheiro e amigo inseparável. Ele até me deixava montá-lo como se fosse meu cavalinho...
Infelizmente o destino nos separou muito antes ainda de meus pais se mudarem da fazenda para a cidade. Ainda me recordo que era costume do Norte ausentar se periodicamente, quase diariamente para ir até a fazenda do tio Orozimbo (não sei o porquê),distante cerca de mais ou menos 5 quilômetros, mas sempre retornava no mesmo dia. Certa vez ao cair da tarde vovó sentiu a ausência do Norte com a chegada da noite. Preocupada vovó comentou com o vovô:
- João estou preocupada com o Norte, ele sempre que vai no Orozimbo volta antes do anoitecer!
- Verdade Anita, é mesmo, ele sempre volta antes da noite chegar, vou dar uma espiada lá fora e pedir para o Zé Soares e os meninos dar uma procurada.
Então vovô saiu fiquei com vovó lá na cozinha, a noite caiu e não ouvi mais falar no assunto e devo ter caído no sono logo. Só no dia seguinte acordei já ouvindo meu avô perguntando para o empregado:
- Zé, você e os meninos encontraram o Norte por ai?
- “Num sei cumpadi”, mas mandei o Carlinho ir até o Orozimbo, seguir a estrada e sondar o que aconteceu.
Eu fiquei a observar o Morro da Onça lá no horizonte (a Leste) imaginando que ele bem poderia saber o que acontecera, pois, em sua imponência toda, ficava sempre a espreitar a todos que passava na estrada a seus pés.
O almoço nem estava pronto ainda ouvi o Zé Soares chamando vovô, indo a sua direção lá no paiol. Logo vovô veio em direção à varanda e foi logo chamando vovó.
- Anita, Anita! Os meninos do Zé Soares encontraram o Norte morto lá na estrada, lá no Morro da Onça. Ele devia estar voltando ontem quando foi mordido por um cascavel. Tá lá todo inchado e com o sinal dos dentes da cobra na coxa.
- “Ara”, “ara”.. vê se pode João! Ele sempre ia e “vortava”. Como pode tê acontecido
”issu”?
Lembro ainda de depois um longo silêncio tomar conta lá da casa. Parece que até os animais lá fora, as vacas, os bezerros, os pássaros... ficaram em silêncio. Eu lembro-me que permaneci onde estava brincando, debaixo da mesa da cozinha, sem palavras, só depois de um bom tempo toquei no assunto e só depois de muitas décadas volto a lembrar do amigo querido.
Norte, um cão que sempre ia para o Leste e um dia ele não voltou nunca mais !

quarta-feira, julho 22, 2009

MEU PAI, MEU ÍCONE.

Hoje, regresso a minha mais tenra idade, minha infância e vejo-me nos braços de meu pai.
Antes mesmo de aprender as primeiras palavras podia entender e compreender todo carinho e amor que ele dedicava a mim.
Aos domingos levava-me nos braços para a feira e sempre me comprava balões coloridos em forma de pato, cataventos coloridos, piões coloridos e outros brinquedos que me chamava atenção.
Passava a maior parte de seu tempo de folga em casa a brincar comigo.
Aos poucos fui crescendo e aquele carinho paterno também.
Quando comecei a entender um pouco a comunicação verbal iniciei logo cedo a fazer perguntas tipo:
..... que é isso?
..... que é aquilo?
......por que isso?
......por que aquilo?
Lembro-me que sempre tinha a resposta de tudo.
A medida que eu crescia ia mudando o repertório de meus questionamentos mas papai estava ali sempre com suas explicações.
Sempre fui mais observador... mas uma criança ainda não possui o senso crítico dai necessidade de perguntar mais.
Diante de uma noite estrelada, enluarada indagava sempre sobre os mistérios das estrelas, da lua e do sol!
Sempre gostei de observar o céu de dia as nuvens e a noite as estrelas.
Gostava muito de ouvir suas estórias e seus causos.
De sua infância, de seus pais pouco me falou, mas as vezes escapava algumas passagens de quando criança, mas muito raro.
Papai sempre fora muito carinhoso e sempre muito atento a qualquer gemido, soluço ou choro. Sempre estava ali do lado para observar e dar segurança e amor.
Certo dia meu pai levou-me a Mercearia Godinho, onde trabalhava no centro da cidade, no mesmo lugar que hoje ela existe, a rua Líbero Badaró, próximo ao viaduto do Chá todo orgulhoso para mostrar-me aos seus colegas de trabalho.
Lembro-me que eu ainda nem sabia andar, mas podia ver e ouvir tudo que se passava em volta.
Gostava de ficar observando o movimento dos carros, dos ônibus e os prédios por onde passava.
Em casa, nas suas horas de folga, papai costumava pegar-me no colo e brincar muito comigo. A noite antes de dormir gostava de brincar de cavalinho, de saltar na sua barriga.
Muitos outros momentos marcantes estão vivos na minha memória, mas serão narrados em episódios a parte em outros contos e crônicas.
O tempo passou, cresci, atravessei a infância, a adolescência, a juventude e alcancei a minha maturidade e em todas as fases de minha vida sempre tive e ainda tenho o carinho e a dedicação de papai, como nos velhos tempos.
É como se o tempo (mais de meio século) entre nós não tivesse passado e rogo a Deus para que esta graça perdure ainda por muito tempo.

MINHA IDA PARA O SEMINÁRIO

DISTANTE DE CASA AOS 12 ANOS DE IDADE.

Lembro-me que desde muito novo alimentava-me de um sonho de ir estudar no seminário e tornar-me um padre como meu tio Antônio!
Até os meus dez anos este sonho foi fortalecendo com a influência externa. Além de meus pais sempre terem manifestado esta vontade havia a projeção do tio padre o qual era para mim um modelo.
Depois, já na cidade grande, participando ativamente das atividades paroquiais esta intenção de ir para o seminário fortificou-se mais ainda. Os incentivos vinham por parte da família, dos amigos de meus pais, das freiras e padres da igreja.
Até que ao concluir o primeiro ciclo do Ensino Fundamental a minha ida para o interior foi decidida com a visita de um padre lá do seminário que foi visitar meus pais. E então tudo foi acertado para a minha viagem. Marcaram o dia para que eu viajasse e meu pai teve a garantia de que ao desembarcar na distante cidade do interior de Minas Gerais este padre estaria lá a minha espera.
Assim chegou o dia decisivo de minha vida, o embarque. Despedi de minha mãe, de meus irmãos e rumei a rodoviária com meu pai que acompanharia-me até a saída do ônibus.
A sensação era um misto de aventura, medo e ansiedade por aquilo que eu encontraria lá fora. Era a primeira vez que me afastava de meus pais, de meus irmãos, de todos que eu conhecia.
Eu ainda ia completar doze anos no mês seguinte.
Acenei para meu pai que aguardava, lá na calçada, o ônibus partir e em seguida enxugando as lágrimas que despencaram tentei distrair-me observando a paisagem e ocupando meus pensamentos ... imaginando a minha chegada na nova cidade, o colégio e imaginando como seria minha vida a partir daquele dia. Para onde eu estava indo não havia ninguém conhecido a não ser o padre que esteve em casa combinando a minha ida para lá e que eu havia visto apenas uma vez. Tudo era novidade e desconhecido.
Sempre ouvi estórias do seminário, onde meu tio e meu pai estudaram.
Após algumas horas de viagem percebi que estávamos chegando ao destino e observando a sinalização na rodovia percebi que estava já na cidade de Itajubá, meu destino final.
Ao desembarcar-me encontrei, a minha espera, o padre Tarcísio conforme prometido a meus pais. Após cumprimentos o padre conduziu-me ao seminário que pelo duração do percurso vi que ficava bem próximo a rodoviária, perto do centro da cidade.
Era um prédio enorme, sobrado, tendo a sua direita uma capela e a sua esquerda uma vasta área verde, pomar e campo de futebol.
De início foi assustador entrar naquele prédio enorme e deserto, para recepcionar-me apenas o padre e dois alunos que também estavam a minha espera para seguir viagem a uma cidade vizinha onde os alunos estavam em período de adaptação aproveitando a última quinzena de férias aos pés das montanhas da Mantiqueira, quase divisa de São Paulo com Minas Gerais.
Viajaríamos no dia seguinte, os dois alunos que lá estavam aproveitaram para mostrar-me todas as dependências da escola, antes levaram-me ao dormitório onde coloquei meus pertences no meu armário.
Era um longo e espaçoso salão com duas fileiras de camas junto as janelas, cada qual com seu criado (armário).
A noite se aproximava e mal deu tempo para conhecer todas as dependências. O silêncio ali era total e chegava a ser assustador. mas a alegria contagiante dos dois novos colegas animaram-me e logo fomos para o refeitório com dezenas de mesas vazias e ocupamos apenas uma delas para a refeição do jantar.
Disseram que sairíamos cedo para Delfim Moreira e portanto devia dormir cedo. A primeira noite apesar do cansaço o sono demorou a vir com tanta coisa passando pela minha cabeça.
Logo ao amanhecer um deles veio me acordar. Levantei, escovei os dentes, lavei o rosto e me troquei. Ah, já deixei umas mudas de roupas para levar conforme orientação e fomos tomar o café da manha e logo em seguida fomos para a rodovia.
Logo apareceu uma jardineira e ao acenar ela parou e entramos os três. A viagem durou cerca de duas ou três horas, pois a jardineira parava nas fazendas e vilas por onde passava.
Entre montanhas apareceu uma pequena cidade cercada de verdes matas e riachos de águas cristalinas, era ali que encontraríamos os alunos juntamente com o padre superior.
Era manha, o sol brilhava, o clima era ameno, logo deparamos com grupos de jovens perambulando pela praça e logo aproximaram de mim já dando as boas vindas e em seguida apareceu o padre Antônio Cortês o Superior da escola que veio dar me as boas vindas.
A recepção foi calorosa e logo já me senti em casa, enturmado.
A pequena cidade era acolhedora e éramos bem vindos ali, todos cumprimentavam os alunos e andávamos a vontade por todo os lados.
Segui o exemplo dos demais alunos e fiquei só de calção de banho e camiseta e logo acompanhei um grupo que ia nadar no rio.
Que maravilha! Encontramos um riacho transparente e com alguns pontos com maior profundidade onde dava para ver o fundo branco de areia, mas a visão nos enganava, parecia raso e ao mergulhar percebíamos que alguns pontos eram profundos mas límpido. A maioria dos alunos já conhecia o local e assim eu apenas os acompanhava.
Depois de nadar, escalar morros, cavalgar, ... a noite chegava e ainda restava atividades de lazer como gincanas, música, canto e várias brincadeiras de grupo.
Passamos dias inesquecíveis e muito agradáveis ali e quando aquele encontro de adaptação terminou sentimos saudade mas muito ainda havia para conhecer na cidade.
A nossa despedida do lugar foi cheia de pesares, as pessoas acenavam e diziam para que a gente voltasse ali mais vezes. A acolhida havia sido maravilhosa e até parecia que estávamos em meio de nossas famílias, nas nossas cidades de origem.
Assim terminou o meu primeiro encontro de adaptação pós férias.
Mais tarde, outras vezes, ali retornei com alguns colegas mas esta primeira vez foi muito marcante e especial.
Mais alguns dias no seminário em adaptação e depois de uma semana iniciou-se o ano letivo. Muitas novidades, aventuras e novos conhecimentos vieram a seguir no ano de 1962 em Itajubá, Sul de Minas.

terça-feira, julho 21, 2009

FESTA NA ROÇA


Domingo ensolarado, a natureza toda em festa numa daquelas manhãs ensolaradas de inverno lá na fazenda da Mata.
Todos se preparavam para algum acontecimento especial. Vovô estava lá na frente do curral acertando os últimos detalhes da montaria dos cavalos.
Mamãe disse me que íamos todos ao batizado do filho do Juca Néca, amigo de vovô em sua fazenda que ficava logo abaixo do Morro da Onça.
Chegando lá reconheci que era aquela fazenda em que costumávamos ir naquelas festas junina com muitos fogos, fogueira e muitos quitutes.
Logo dirigimos para a pequena capela que ficava acima da sede, lá no alto da colina. A capela era pequena e a maioria das pessoas, principalmente os empregados da fazenda ficavam do lado de fora a espiar o que se passava lá dentro.
Era um dia festivo, as roupas coloridas das pessoas contrastavam com a linda paisagem iluminada pelos raios do sol naquele belo domingo.
Minha família, mamãe, vovó, vovô, tio Toalba e eu ficamos lá bem diante do altar ao lado da família do amigo do meu avô.
O padre Godofredo de origem holandesa e ainda arrastando um português enrolado, mas compreensível para a maioria, pois estávamos já habituados com os padres holandeses na cidade. Praticamente não havia padres brasileiros na maioria das paróquias.
Com aquela peculiar curiosidade infantil eu observava tudo ao meu redor e notei que o padre conversava com os pais da criança e com meus avós e que havia algo errado. O padre não concordava com alguma coisa, deu para ver que estavam falando de meu tio que seria o padrinho da criança a ser batizada.
De repente meu avô acena-me para que eu fosse até ele que se encontrava ao lado da pia batismal e apresentou-me ao padre.
Foi ai que ouvi o padre dizer que então eu seria o padrinho daquela criança pois o meu tio não poderia ser por professar outra crença, ser (* )protestante.
Eu tinha nesta época aproximadamente seis anos de idade, mal compreendia aquela situação mas fiz o que mandaram eu fazer.
Entregaram-me aquela criança para eu segurar enquanto o padre procedia a cerimônia.
O padre era muito severo, lembro-me que ficou nervoso quando percebeu a presença de duas moças aproximando do altar para auxiliá-lo afastou-as imediatamente dizendo:
- A mulher não pode tocar nos objetos sagrados e nem no altar.
Foi então que um senhor se aproximou e auxiliou o padre durante toda a cerimônia.
Os anos passaram e por mais de uma década ainda visitei a fazenda de vovó, mas jamais retornei a fazenda do seu Juca Neca e nunca mais tive notícias de meu "afilhado".
Só fui entender o que realmente se passou muito tempo depois.
Ao meu ver uma coisa absurda, uma hipocrisia, uma intolerância da igreja ou do padre Godofredo!?
Uma criança batizando outra criança sem ao menos saber, compreender o significado de ser "padrinho".
E durante toda a minha vida este foi o único afilhado . Nunca mais fui convidado a ser padrinho de nenhuma outra criança!

Obs.: Vovó era protestante, ou seja, evangélica como hoje falamos e vovô católico.

Era comum nas famílias os filhos homens seguir a mãe, ser educados na religião ou crença da progenitora e as filhas mulheres educadas na crença do pai.

segunda-feira, julho 13, 2009

Lembranças do tio Lerico

Final de 1950, o mês exato não posso precisar mas sei que estou na terra da garoa, São Paulo dos anos 50 e ainda posso ouvir aquele sotaque lusitano por t odos os lados, as vezes o italiano, o árabe entre outros que se soma a cultura e falácia dos migrantes que para São Paulo vieram atrás do sonho de vencer na vida.
Vejo a cidade mais saudável, mais festeira, e andando mais devagar e menos poluída.
As estátuas espalhadas pelas praças e avenidas chamam-me a atenção. O emaranhado dos edifícios, os bondes, os ônibus e os carros me enchem de curiosidade.
Nos bairros sinto ainda o cheiro peculiar do carvão e querosene! Um cheiro que lembra o fogão a lenha lá do interior de onde a maioria migrou.
Mas sinto saudade das montanhas, morros, das matas, das aves, dos córregos de águas límpidas.
Na Praça da Sé vejo a Catedral ainda em construção, sem suas torres, a rua Santa Teresa está ali separando a Praça da Sé da Praça Clóvis Beviláqua com seu "glamour" guardando imponente seu cinema e restaurantes.
Lá nos fundos da Catedral vejo a construção do Fórum da João Mendes, bondes elétricos circulando imponentes pelos trilhos incrustados nos paralelepípedos que calçam as ruas do centro da velha capital que se renova a cada dia com a chegada de mais imigrantes e a construção de novos edifícios.
Depois de cruzar a Praça João Mendes, olho a minha esquerda paro na esquina da Avenida Liberdade e posso ver lá do lado do canteiro de obras do (hoje) Fórum da João Mendes, uma jovem mãe com seu filho no colo apontando para cima, ao meio dos andaimes um dos operários que lá trabalhava como carpinteiro.
- Olha filho,é o tio Lerico que está trabalhando lá em cima!
Acena-se para um senhor lá no alto e pouco depois observo-o descendo e indo em direção da mãe com o filho nos braços e por alguns minutos conversam de maneira familiar.
- Tio Lerico, este é o Adauto, o meu menino, o Walter foi me buscar lá em Campo Belo.
- Ah... Gileite fico muito feliz de ver você com este menino forte e bonito!
Atento a tantas coisas ao meu redor... uma infinidade de sons … eu nem ouvi o que continuaram a conversar... quando de repente percebi que os dois se despediram e pouco depois e aquele senhor voltou aos seus afazeres e a jovem mãe com seu filho se foi.
De repente, como num passo de mágica aquele cenário todo mudou, estava eu no mesmo lugar mas diante de uma movimentada e nervosa cidade com um trânsito alucinante, centenas de pessoas tentando atravessar entre carros a avenida Liberdade e a movimentada Praça João Mendes.
Ai me dei conta de que o tempo passou, meio século depois então percebi que aquela jovem mulher era justamente a minha mãe e a criança nos seus braços era quem agora escreve esta lembrança viva.

Obs.: (Corrigindo a História) :
Saudosos tio Lerico, cunhado do Vô João, marido tia Anésia trabalhava como carpinteiro no início da construção do Fórum da João Mendes, 1950.
O que contraria informações na Internet de que a referida obra deu-se no ano de 1956.

CORUJA

CORUJA
Meu elemento xamânico.