segunda-feira, julho 13, 2009
Lembranças do tio Lerico
Vejo a cidade mais saudável, mais festeira, e andando mais devagar e menos poluída.
As estátuas espalhadas pelas praças e avenidas chamam-me a atenção. O emaranhado dos edifícios, os bondes, os ônibus e os carros me enchem de curiosidade.
Nos bairros sinto ainda o cheiro peculiar do carvão e querosene! Um cheiro que lembra o fogão a lenha lá do interior de onde a maioria migrou.
Mas sinto saudade das montanhas, morros, das matas, das aves, dos córregos de águas límpidas.
Na Praça da Sé vejo a Catedral ainda em construção, sem suas torres, a rua Santa Teresa está ali separando a Praça da Sé da Praça Clóvis Beviláqua com seu "glamour" guardando imponente seu cinema e restaurantes.
Lá nos fundos da Catedral vejo a construção do Fórum da João Mendes, bondes elétricos circulando imponentes pelos trilhos incrustados nos paralelepípedos que calçam as ruas do centro da velha capital que se renova a cada dia com a chegada de mais imigrantes e a construção de novos edifícios.
Depois de cruzar a Praça João Mendes, olho a minha esquerda paro na esquina da Avenida Liberdade e posso ver lá do lado do canteiro de obras do (hoje) Fórum da João Mendes, uma jovem mãe com seu filho no colo apontando para cima, ao meio dos andaimes um dos operários que lá trabalhava como carpinteiro.
- Olha filho,é o tio Lerico que está trabalhando lá em cima!
Acena-se para um senhor lá no alto e pouco depois observo-o descendo e indo em direção da mãe com o filho nos braços e por alguns minutos conversam de maneira familiar.
- Tio Lerico, este é o Adauto, o meu menino, o Walter foi me buscar lá em Campo Belo.
- Ah... Gileite fico muito feliz de ver você com este menino forte e bonito!
Atento a tantas coisas ao meu redor... uma infinidade de sons … eu nem ouvi o que continuaram a conversar... quando de repente percebi que os dois se despediram e pouco depois e aquele senhor voltou aos seus afazeres e a jovem mãe com seu filho se foi.
De repente, como num passo de mágica aquele cenário todo mudou, estava eu no mesmo lugar mas diante de uma movimentada e nervosa cidade com um trânsito alucinante, centenas de pessoas tentando atravessar entre carros a avenida Liberdade e a movimentada Praça João Mendes.
Ai me dei conta de que o tempo passou, meio século depois então percebi que aquela jovem mulher era justamente a minha mãe e a criança nos seus braços era quem agora escreve esta lembrança viva.
Obs.: (Corrigindo a História) :
Saudosos tio Lerico, cunhado do Vô João, marido tia Anésia trabalhava como carpinteiro no início da construção do Fórum da João Mendes, 1950.
O que contraria informações na Internet de que a referida obra deu-se no ano de 1956.
domingo, julho 12, 2009
segunda-feira, junho 22, 2009
Meus lugares inesquecíveis.
Os animais deixavam trilhas por baixo daqueles arbustos e em alguns lugares formava-se uma clareira. As trilhas eram caminho com terra batida pela passagem dos animais (galinhas, pássaros, os animais domésticos, alguns animais selvagens como pequenos veados, gatos do mato, jaguatiricas, entre outros.
Aquelas trilhas eram cheias de encruzilhadas e sempre dava em alguma clareira lugares agradáveis para se brincar. Muitas vezes eu tinha que me abaixar para passar pois as trilhas em forma de túneis eram baixas mas em boa parte eu podia caminhar quase sempre de pé, mas sempre abaixando a cabeça.
Ali eu passava horas brincando, ora observando os pássaros que ali vinham compartilhar daquela suave sombra ora explorando aqueles caminhos já prontos ou até mesmo construindo outros até que meus pais percebendo minha ausência ao redor da casa chamavam por mim.
Aos poucos fui perdendo o receio e explorarando o carrego represado que ficava abaixo do mandiocal o qual descia em direção a fazendo de meus avós.
Havia dois trechos um antes do açude, mais profundo e grosso e outro que ficava abaixo da casa em que morava e este possuía mais água represada e margeado de bastante árvores e vegetação. Depois do açude a água fluía mais indo alimentar o monjolo, o moinho, a usina elétrica, o carneiro e as vezes ainda tinha outras serventia mais la na sede da fazenda.
Alguns trechos possuía a margem limpa e como suas águas eram claras me aventurava entrar onde não fosse profundo.
Escondido do vô João e sempre com a anuência da vó Anita que pedia a um empregado, o "Zé da Mãezé" improvisar uma jangada com troncos de bananeiras por sugestão de vovó para que eu pudesse brincar no córrego indo e voltando no trecho navegável cerca de 700 m acima da fazenda.
Ali passava boa parte do dia em cima da improvisada jangada que para o meu peso e tamanho era o suficiente para navegar pelo córrego. O Réx, um pequeno cão da fazenda sempre me acompanhava e muitas vezes servia de alerta, seus latidos me avisavam da presença de serpentes as margens.
Enquanto a jangada deslizava pelo leito do córrego represado passava por galhos verdes e carregados de amoras das quais aproveitava pra deliciar-me com aquelas frutinhas frescas.
As vezes encostava a jangada as margens e saia para ficar na pequena cachoeira ao meio da mata que ficava aos fundos do pomar. Lá depois de me refrescar com uma água límpida e fria sentava-me numa pedra e ficava a observar os pássaros e outros pequenos animais que por ali buscavam refúgio do sol quente. Não raro encontrava alguma serpente em busca de alimento, geralmente pequenos pássaros ... mas parece que ambos eu e elas tomávamos sempre caminhos opostos e jamais procurávamos qualquer aproximação.
O local era exuberante em flora e animais por isso era muito bom estar ali, uma pena que não havia ninguém a compartilhar aqueles momentos.
Quando cansava de ali ficar adentrava no vasto pomar em busca de alguma fruta "temporona".
Dali ouvia-se toda a lida da fazenda, o som das galinhas cacarejando, de vez em quando um mugido aqui e acolá, ora o canto triste e cansado do carro de boi que chegava carregado com a "panha" do dia. E o estampido seco do monjolo a trabalhar desde o nascer do sol.
Mas havia um momento do dia que tudo parecia silenciar, não se ouvia nada nem o vento a roçar os galhos das árvores.
- Ah este é o momento do perigo ! (diziam os velhos empregados da fazenda)
- Hora da onça tomar água!
Parece que toda a bicharada respeitava esta hora, até os pássaros pareciam silenciar em respeito a rainha da mata!
Saia pelo pomar entre laranjeiras, macieiras, e outras espécies frutíferas em busca de alguma fruta madura, sempre que encontrava alguma fruta "temporão" eu colhia-a com todo cuidado e corria a presentear mamãe ou vovó que estava lá na cozinha preparando o almoço ou o jantar.
- Mãe ! Olha que eu trouxe para a senhora!
Quando ela gostava e comia me enchia de alegria e contentamento.
Ah, gostava de subir a colina que no seu topo havia uma pedreira em forma de laje e de lá se avistava longe!
Fica ali por muito tempo as vezes até o entardecer quando o sol começava a beijar o horizonte e eu ouvia as vozes dos camaradas que já nas suas casas proseavam e alguns pegavam suas violas e se punha a cantar. Lá do alto da pedreira ouvia-se tudo, as vozes misturando-se aos outros sons, os pássaros já se preparando para seus aposentos. E o céu já numa transição de cor começava a mudar suas nuanças.
Geralmente não esperava vô João chamar para almoçar ou jantar, pois ele fazia questão que todos estivéssemos junto a mesa na hora das refeições.
Acontece que nas minhas andanças pela fazenda as vezes era atraído pelo cheiro da comida lá na casa do Zé Soares, então costumava me aproximar do casebre e logo a "Memba" (mulher do Zé Soares) chamava vem menino, come um pouco! Eu dizia não obrigado, mas ao mesmo tempo caminhando em direção da cozinha. Eu dizia que não poderia comer que mamãe e vovó se zangariam e a Memba logo ia dizendo:
- Bobo, come aqui e depois você come lá! É só não falar!
Eu não resistia a esta gula e assim frequentemente eu repetia tal façanha.
Gostava muito de subir em árvores e havia muitas árvores frondosa naquela época lá na fazenda da Mata. Aproveitava a ausência de papai e do vovô pois eles não gostavam de me ver arriscando subir nas maiores árvores.
Geralmente eu conseguir escalar os mais altos galhos, ah, mas a descida! Ai era uma coisa, eu ficava longo tempo lá no alto com medo de descer e não podia pedir ajuda
Mas sempre consegui subir e depois descer. É que os galhos eram grossos e as vezes longos e por ser ainda criança minhas pernas não alcançavam os galhos. Para subir era sempre mais fácil mas a descida era sempre mais preocupante.
Alguns lugares eu não me aventurava ir sozinho e aproveitava a vinda dos primos para com eles visitar os lugares que eu conhecia ou desejava ir.
Eles na maioria das vezes tinham medo e para encorajá-los eu fingia não ter nenhum medo ou receio, mas na verdade eu também tinha. E assim enfrentávamos novas aventuras.
Uma delas foi no Morro da Onça, sempre olhava aquele morro imponente e dizia ainda vou subir lá. Devia ter uns sete anos quando reuni meus primos Dalmilho, Raquel, Jane, Mariete e depois de preparar uma bandeira com um lençol velho de vovó nos arrumou partimos em direção a tão sonhada aventura.
Vovó e alguns empregados nos alertou, algo que eu sabia, do perigo de embrenhar-se nas matas do Morro da Onça, refúgio de muitas cobras, principalmente da cascavel que prefere lugares com muitas pedras e a humidade da mata
Mas fomos assim mesmo, ora eu não podia demonstrar nenhum medo aos primos da cidade, afinal eu morava ali na fazenda!
Conseguimos alcançar o topo do Morro da Onça e de lá desfrutar de uma visão maravilhosa.
A leste conseguíamos ver alguns sinais das cidades vizinhas como pontinhos brancos incrustado nas montanhas no horizonte, lá deveria estar primeiro Cana Verde, Perdões e Carmo da Cacheira. A oeste tínhamos a visão da Fazenda da Mata emoldurada com o Morro dos Pimentas aos fundos. Ao Norte podíamos enxergar parte da nossa cidade, Campo Belo e ao Sul vestígios do Rio Grande que serpenteava entre as montanhas em rumo a Serra de Boa Esperança a qual era visível. O Morro da Onça na década de 60 e início de 70 ainda guardava intacta a mata nativa, todo recoberto de verde deixando aparecer só uma laje rochosa no seu topo e em do lado norte, na encosta rompiam algumas enormes pedras.
Chegamos a parte superior e logo fomos tratar de deixar nosso marco, a bandeira improvisada com o lençol velho que vovó nos arrumou.
Eu me arrisquei a escalar algumas pedras que ficavam mais a extremidade enquanto minhas primas ficaram com o Dalmilho na laje.
Mais tarde em outras férias refiz a mesma aventura e hoje, sinto saudade e vontade de repetir o mesmo.
Mas dá uma tristeza, mesmo de longe, ao ver pelo Google Earth que o meu Morro da Onça não é mais o mesmo!
Teria envelhecido? Estaria doente? Não, o homem acabou com sua beleza primitiva. Hoje ele ainda está lá mas despido e triste!
A leste conseguíamos ver alguns sinais das cidades vizinhas como pontinhos brancos incrustado nas montanhas no horizonte, lá deveria estar primeiro Cana Verde e Perdões. A oeste tínhamos a visão do da Fazenda da Mata tendo como cenário de fundo o Morro dos Pimentas. Ao Norte podíamos enxergar parte da nossa cidade, Campo Belo e ao Sul vestígios do Rio Grande, lá pelos lados do Porto dos Mendes serpenteando pelas montanhas em rumo a Serra de Boa Esperança a qual era visível.
O Morro da Onça até o início da década de 60 ainda guardava intacta a mata nativa
Todo recoberto de verde mostrando apenas a laje rochosa no seu topo e em todo lado norte, na encosta rompiam algumas enormes pedras.
Chegamos a parte superior fomos logo arranjando uma maneira de deixar nosso marco lá no topo, a bandeira improvisada com o lençol velho que vovó nos arrumou.
Eu me arrisquei a escalar algumas pedras que ficavam mais a extremidade enquanto minhas primas ficaram com o Dalmilho aguardando na laje.
Mais tarde em outras férias refiz a mesma aventura e hoje, sinto saudade e vontade de repetir o mesmo.
Sinto uma tristeza imensa, mesmo de longe, ao ver pelo Google Earth que o meu Morro da Onça .
- Ele não é mais o mesmo!
- Teria ele envelhecido?
- Estará doente?
- Não, o homem é que acabou com sua beleza primitiva.
- Hoje ele ainda está lá !
- Mas despido e triste!
Assim como toda a região ao seu redor que antes era só verde, hoje é vegetação rasteira, nem mesmo os lindos cafezais ao pé do morro não existem mais apenas uma pobre pastagem.
Ainda na década de sessenta a fazenda da Mata ainda guardava lembranças de uma época mais remota. Havia na colina ao Sul da sede, restos de muralhas de pedra, um pouco mais acima uma tapera, onde só restava alguns alicerces de pedra indicativo de antiga fazenda, e algumas valas.
Eram os dois tipos de cercas, obstáculos que faziam para separar propriedade e mesmo dividir os animais. Tanto a muralha de pedras como a vala funcionava como demarcação ou obstáculos para o gado e outros animais maiores.
Era um dos lugares que eu gostava de frequentar embora sabia do perigo de cobras nestes locais de pedras ou valas.
No verão meu lugar predileto era nos manguesais, havia muita manga, muitas espécies diferentes e com esta abundância os porcos disputavam com os saguis e até mesmo com os ouriços (Porco Espinho) esta deliciosa fruta tropical.
Eu tinha as minhas preferidas, geralmente as mangueiras as quais apenas os saguis frequentavam e cujos galhos eu pudesse escalar e ali ficar saboreando as mais bonitas e doces mangas.
Ainda na década 50 saímos da fazenda da Mata e fomos morar no nosso sítio no Porto dos Mendes, mais precisamente no Morro Grande. Lugar isolado, tendo o Porto como o lugar povoado mais próximo, cerca de 8 kilômetros aproximadamente. Mas não havia nenhuma vizinhança ali, eu vivia mais sozinho que na fazenda de vovó.
Ali encontrei e explorei muitos lugares ao pé do Morro, a beira de córregos de águas límpidas, goiabeiras e mangueiras por todos os lados.
Gostava de frequentar a mata e ficar ali observando a beleza dos pássaros. A noite fica a olhar para as montanhas onde enxergava a luz dos carros que passavam na estrada rumo a Boa Esperança.
A caminho do Porto por uma estrada de terra que mal passava um carro de boi apreciava-se frutas silvestres e límpido córregos que buscavam o Rio Grande
De manha e a tarde ouvia-se o piar e o cantar da Siriema e das Saracuras, depois os Sabiás entre outros. Era sempre uma linda sinfonia!
A tardezinha, mais ao anoitecer lá na encosta da morro vinha o uivado as alcateias que ali se reuniam.
Embora em pequeno volume a água era abundante em nosso sítio e papai consegui conduzir uma boa parte da nascente para passar na porta de casa.
Fim da década de cincoenta, início da década de sessenta papai vendeu o sitio. Retornei por uns tempos para a fazenda de vovó onde aproveitei mais um pouco meus lugares prediletos já descritos aqui e depois disso meados de 1961 papai levou nos para São Paulo.
sexta-feira, junho 19, 2009
DEPOIS QUE O ÔNIBUS PASSOU
Ávido do saber eu andava sempre com um livro debaixo do braço para aproveitar ler durante a viagem de ônibus e em outras oportunidades.
Certa noite retornando para casa percebi que havia passado o último ônibus e por algum motivo não havia parado ao dar sinal. Era uma época que havia poucas opções de transporte coletivo, principalmente onde eu me encontrava, no Ipiranga para Vila Formosa.
Não havendo mais esperanças de novo transporte comecei a caminhar pelas ruas já desertas do Ipiranga rumo a Vila Prudente e depois Vila Formosa onde eu morava com meus pais.
Pouco antes da meia noite estava eu já cruzando a linha ferroviária sobre o viaduto (Viaduto Pacheco Chaves) que atravessa a Avenida do Estado rumo a Vila Prudente.
Eu caminhava absorto pela lateral direita que destinada a pedestres quando de repente percebi um táxi que parou ao meio fio pouco a minha frente.
Percebi que a porta do passageiro se abriu e ouvi a voz do motorista convidando-me a entrar.
Confesso que fiquei surpreso visto não ter solicitado a parada do referido táxi.
O motorista indagou-me:
- Vai para que lugar moço ?
Então respondi:
- Estou indo para casa.
- Moro em Vila Formosa e o último ônibus passou direto.
Mas eu lhe disse que não podia pegar o táxi pois não havia dinheiro para pagar pela corrida - e mesmo assim ele insistiu mais uma vez:
- Entre, é o meu caminho, eu posso deixá-lo lá na sua casa.
Então um pouco ressabiado entrei no veículo que seguiu o seu destino.
Uma indagação inquietante ocorria em meus pensamentos.
Antes que eu dissesse qualquer coisa o motorista puxou conversa e explicou:
- Sabe, eu parei porque vi que você é estudante. Percebi que você estava com um livro debaixo dos braços e é muito perigoso um jovem estudante andar por ai a esta hora. A P.E. (Polícia do Exército) costuma recolher e prender jovens (mesmo adultos) pelas ruas sem nenhum motivo e depois nunca mais se tem notícias deles.
- Eu sei como é. (disse ele).
- Eu conheço muitos casos de pessoas que desapareceram, depois os pais procuram seus filhos e não encontram mais!
Depois de ouvir, com atenção, o relato do motorista contei-lhe que eu havia acabado de servir o Exército no interior e que eu sempre ando por ai sem nenhum receio.
Fomos conversando e de repente já estávamos próximo a minha casa. Então eu agradeci o gentil senhor e disse-lhe que podia deixar-me ali mesmo na avenida próxima a minha casa. Mas ele insistiu em deixar-me na porta de casa e em seguida seguiu seu destino.
Ao entrar em casa, encontrei meus pais e meus irmãos já adormecidos e só no dia seguinte eu pude relatar o fato a eles que também ficaram sensibilizados com a atitude do bom senhor.
quinta-feira, junho 18, 2009
GARELI – QUEM TEVE UMA JAMAIS ESQUECE.

1972 - Gareli Modelo 1971/2,
Muito comum na Itália de fácil locomoção e de baixo consumo de combustível.
Início dos anos 70 e São Paulo não era mais a terra da garoa. Mas uma grande metrópole onde se podia andar a vontade, dia e noite, sem ser assaltado, sem ser incomodado a não ser que perturbasse a ordem pública ou se opusesse ao regime da ditadura militar... a vida era tranqüila.
A cultura estava efervescente, muitos espetáculos na noite paulistana, teatro, cinema, exposições, feiras, etc.
Eu acabava de retornar a casa paterna depois de oito anos estudando em colégio de padres no interior de Minas e de São Paulo.
Depois de quase uma década recluso em uma escola religiosa e ainda com a experiência do serviço militar sentia-me a vontade diante desta nova vida.
Terminado o ensino médio logo tratei de preparar-me para o ensino superior ingressando num curso preparatório.
O trabalho, os estudos e a busca de novas experiências e novos conhecimentos fizeram com que a minha permanência em casa restringisse mais para dormir e nos finais de semana.
O transporte era o que mais preocupava, era precário. Os ônibus muito lotados e poucas linhas. O metrô, ora o metro, este ainda estava no projeto.
Diante da dificuldade de locomoção para o serviço, para a escola eu pensava em comprar uma moto ou um carro usado. Comecei a pesquisar os modelos mais simples de motos, até de carros, mas meu orçamento não era suficiente para tal.
Alguns amigos aventuraram-se na compra de um Gordine, ou Vemaguet (carros populares da década de 60) carros fora de linha de fabricação, outros preferiam motos de 50 cc.
Acabava de chegar no Brasil, a preço popular, a Gareli Modelo 1971/2, muito comum na Itália para fácil locomoção e de baixo consumo de combustível.
Adquiri a minha Gareli e esta passou ser a minha companheira para o trabalho, escola e até para o lazer.
Equipei-a com duas maletas de coro na parte traseira nas laterais do assento do carona para eu transportar meus cadernos, livros e outros objetos.
Este modelo era novidade no Brasil, acho que comprei um modelo que acabava de ser importada, havia poucas unidades. E isto fazia com que chamasse muita atenção das pessoas que questionavam:
Ei!!!
Isto é uma bicicleta ou uma Moto?
Quanto gasta de gasolina?
Etc
Era muito prática e econômica. Seu tanque de combustível havia capacidade de apenas dois litros de gasolina; o suficiente para rodar dezenas de quilômetros sem abastecer.
Incrível!
Apenas havia um problema no dia de chuva, a tração era no pneu traseiro isso fazia com que o motor perdesse um pouco a tração. Em situações normais era a solução ideal, não havia trânsito ruim para ela. E também naquela época não havia tantas motos nas ruas como atualmente. Portanto era tranqüilo transitar por ruas e avenidas de São Paulo.
Trabalhava num Banco Comercial no centro da capital mas o meu serviço era externo e por isso a Gareli muito me auxiliou. Não me preocupava mais com transportes lotados, com o último horário de circulação de ônibus, podia sair e voltar a hora que quisesse. E sempre chegava nos lugares antes de qualquer um, era maravilhoso!
Como disse anteriormente o modelo era inédito, uma pequena remessa havia sido importada da Itália o modelo que era ideal para cidades planas sem muitas subidas. Era normal as pessoas o tempo todo fazendo perguntas. Sempre chamava a atenção por onde passava.
Era leve, silenciosa e econômica. Esta foi minha companheira por mais de dois anos para o trabalho, a escola e passeios.
Nesta nossa parceria alguns acontecimentos marcantes que relato a seguir:
Certa vez voltando para casa pela rua da Moóca, por volta das 21 ou 22 horas aconteceu do pneu traseiro de minha Gareli furar e como não havia meios de consertá-lo ali precisei caminhar empurrando-a em direção de casa. Era uma caminhada de cerca de seis ou sete quilômetros. Caminhava beirando a calçada, mantendo o farol da Gareli aceso. Havia passado diante da Delegacia de Polícia que havia ali na Rua da Moóca e poucos metros adiante passou por mim um automóvel modelo Opala, de vidro fumê que após ultrapassar-me encostou-se ao meio fio e dele desceram o motorista e o carona. Dois rapaz com jeito de “playboy”.
A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi a de “problemas a vista”, achei que queriam confusão e eu sozinho, numa rua deserta, sem movimento, o que podia fazer!?
Foi quando um deles se aproximou e veio logo indagando: O que é isso uma bicicleta ou uma moto? - a pergunta que todos faziam.
Ainda um tanto temeroso respondi a pergunta e as demais referente a Gareli que tanta curiosidade despertava.
Foi então que o rapaz perguntou para onde eu estava indo e ao saber que iria para casa em Vila Formosa prontificou-se em acomodar a Gareli no porta mala de seu veículo e levar-me até a casa de meus pais. Com muita educação os dois ocupantes do Opala preto que de início me causou receio ao parar pouco a frente de onde eu estava conseguiram colocar a Gareli, mas a roda dianteira ficou suspensa do lado de fora e era preciso alguem ir dentro do porta mala para segurar a roda para não estragar a pintura do carro.
Foi ai que um deles perguntou se eu me importava de ir no porta mala segurando a parte dianteira da “motoca”. Eu disse que não, de modo algum e assim depois de acomodar-me dirigiram-se calmamente ao endereço a eles fornecido e em poucos minutos estava eu em casa são e salvo e com a minha Gareli. Agradeci aos desconhecidos meio sem palavras os quais retribuíram com um sorriso e um “dinada” e foram-se embora.
Numa outra ocasião o mesmo fato ocorreu mas agora na movimenta Radial Leste, a noite; percebendo a avaria daquela “motoca” sendo empurrando por mim um pequeno caminhão baú parou poucos metros a minha frente e ofereceu-se para levar-me até em casa. E gentilmente deixou-me na esquina da rua de casa.
Seriam anjos ou mensageiros dos mesmos!?
Acreditem ou não, fatos assim sempre acontecem, pelo menos comigo.
Hoje resta-me saudade daquele tempo e ao lembrar destas situações incomuns eu me pergunto por onde andará estas pessoas ?
terça-feira, janeiro 13, 2009
Meus Pensamentos
A única verdade que eu sei é que ao nascer eu comecei a morrer!
-- Adauto Neves [pensador]Frases, poemas e mensagens em:
http://www.Pensador.info
sexta-feira, agosto 29, 2008
CHIQUINHO
Vovó gostava de criar filhotes de pássaros em casa para domesticá-los. Cuidava dos filhotes ainda sem penas com papa de fubá e de frutas.
Lembro ainda dos filhotes de maritacas, de pássaros pretos e canários da terra que ela criava com todo carinho dentro de casa.
Mas de um lembro em especial, um pássaro preto que foi batizado de Chiquinho!
Foi pego ainda bem novinho, e tratado com muito carinho e cuidado.
Cresceu e acostumou com todas as pessoas da família!
Ele possuía uma gaiola que ficava pendurada na sala, onde ele dormia e ficava. Mas a gaiola estava sempre com a porta aberta para que ele saísse quando quisesse.
Ele gostava de voar para o ombro de alguém e pedir carinho, abaixava a cabeça esperando um cafuné!
Ah como ele gostava que coçasse a sua cabeça!
Estava sempre feliz a cantar e quando queria algo dava aquele piado que todos sabiam interpretar.
Costumava voar até alguma árvore próxima, ir até o pomar e depois retornava para a sua gaiola.
Cantava um canto alegre e firme e era um encanto, uma euforia só!
Incrível, atendia sempre que ouvia seu nome, sabia que ele era o Chiquinho! Acreditem!
Certo dia apareceu pela fazenda, de passagem, um caixeiro viajante, um viajante que trazia produtos da cidade grande para vender.
Vovó interessou-se pelos tecidos e permitiu que ele entrasse até a sala e mostrasse o que havia de novidade.
Logo foi dizendo:
- Ah que pássaro lindo!
- E ele não foge, com esta portinha aberta?
- Não - respondeu vovó – ele foi acostumado a viver em liberdade.
Mas algo estranho começou a acontecer!
Chiquinho que era um pássaro alegre, calmo e manso começou a demonstrar um comportamento estranho!
Saltava de poleiro em poleiro e soltando alguns piados tristes!
Algo não estava normal todos perceberam.
Assim que aquele estranho se foi vovó apressou-se a pedir que eu fosse correndo chamar a Mariana.
Como já era de costume quando alguém adoecia mesmo um animal da fazenda Mariana era solicitada para vir benzer.
Em pouco tempo cheguei pouco a frente da Mariana que veio já preparada com um galho de arruda e pegando o pássaro no colo passou ao ritual de benzedura aspergindo água com aquele ramo de arruda e balbuciando algumas palavras que não podia entender.
Chiquinho estava quase paralisado, sem ação, não era mais aquele pássaro alegre e esperto que conhecíamos!
Mariana disse:
- “Cumade Nita”, a coisa tava feia, este homem botou um mal olhado muito brabo nele!
- Coisa pesada, mas ele vai ficar bom, deixa ele ai na gaiola e vai ver amanha ele vai estar bom de novo!
Eu que estava lá de pé encostado na porta observando atento todo o ritual apressei a sair e aproveitar o resto da tardezinha que terminava para brincar, correr lá pelo pomar.
Sei que Mariana, uma negra empregada antiga da família ficou ainda um pouco conversando com vovó e vi quando ela passou na estrada e disse:
- “Inté Adarto!”
Ai disse também o “inté” e continuei a brinca!
Só sei que no dia seguinte ao levantar encontrei o Chiquinho todo serelepe a saltitar e já arriscando algum canto afinando suas cordas vocais..
(Tudo aconteceu na minha infância na fazenda de meus avós, em Minas Gerais, por volta de 1955)
Gnomos ou Duendes?
Uma visita inesperada.
Lá fora o céu estava azul, o sol brilhando, a metade do quarteirão onde morava ainda era coberta por arbustos e vegetação rasteira que estava a anunciar a primavera.
Eu havia acabado de chegar e já estava na mesa para almoçar.
Surpreso observei a minha frente diante da mesa dois seres muito alegres, mas um tanto diferente, um pouco disformes em relação aos humanos. Estavam falando entre si e me fitando, eu surpreso fiquei sem ação.
Apenas perguntei a mulher que estava lá na pia preparando alguma mistura.
- Olha, você está vendo?
- O quê? Não vejo nada, ta doido?
- Há dois homenzinhos a minha frente.
- Imaginação sua, não há ninguém ai.
Neste ínterim percebi que eles ficaram pensativos um olhando para o outro e depois como duas crianças alegres começaram a saltitar e a desmanchar em gargalhadas.
Em seguida, dirigiram-se à porta e sumiram através do mato ao lado da casa.
Mas realmente eles estavam ali embora visse que eles conversavam entre si eu não os podia ouvir, apenas vê-los!
Alguns anos já se passaram desde este encontro porém permanece nas minhas lembranças a imagem daqueles dois seres que embora diferente de nós humanos eram muito semelhantes e transmitiam muita paz e bondade.
Não mais os vi em lugar algum, mas a sua presença ainda sinto em alguns lugares que passo ou em minha própria casa!
Gnomos, Duendes, Fadas, e outros seres elementares existem de verdade!?
Depois daquela experiência eu acredito, eu os vi, eu os sinto!
Acredito que haja uma há outra dimensão paralela a nossa! Muito próxima, mas que apenas algumas pessoas percebem!
Estes seres, embora não os vemos podemos sentir a presença deles muitas vezes bem ao nosso lado, eu... eu os sinto!
sábado, agosto 23, 2008
O tronco de Ipê
Foto do casarão, o Ipê não aparece ai, esta é
visão que se tinha lá debaixo da árvore, junto
a porteira
Era lindo, robusto, frondoso e estavam enraizadas bem em frente ao casarão, as margens da estrada que trazia os viajantes, os caminhantes, as comitiva que retornavam conduzindo centenas de cabeças de gado.
Em seu tronco estava a base de uma porteira que separava as duas pastagens, a do leste que tinha como cenário de fundo o morro da onça e a do oeste, aos fundos da fazenda, a estrada dos Maias que cortava o morro de vegetação rasteira e coberto de algumas pedras em forma de laje cravadas na terra.
O velho ipê parecia mais um guardião que ali permanecia desde os tempos de vovó criança, do vovô Abílio abrigando e alegrando as novas gerações com sua imponência, sua beleza.
Toda primavera tingia-se de amarelo, exibindo suas abundantes flores amarelas.
O solo ficava todo tingido de amarelo mais parecendo um tapete com as flores que caiam diariamente e mesmo assim os seus galhos continuavam vestidos de amarelo ouro.
Geralmente vinha da cidade algum tio avô visitar vovó e deixava seu automóvel lá debaixo do Ipê. Todos eles tinham o mesmo modelo, pois na época não havia muitos modelos, eram todos Ford 29, acho eu. Só me lembro bem que eram conhecidos como “furrecas”.
Enquanto todos ficavam lá dentro a conversar e ficava lá perto do automóvel observando o contraste do amarelo das flores que caiam sobre o carro preto (todos os modelos eram pretos, não havia outras corres).
O pára-brisa parecia mais um espelho que refletia o azul infinito do céu e nuvens que mais pareciam barcos apressados a singrar o mar infinito. Ah como gostava de ficar ali, sempre sozinho, falando comigo mesmo e aproveitando cada minuto a sombra e o frescor das flores.
E os pássaros – eram muitas espécies e como brincavam alegres e saltitantes! O João de Barro, ah este parecia ser o dono daquela árvore, edificou sua moradia de alvenaria no mais alto tronco e de lá era o sentinela efetivo.
Fiquei sem palavras não sabia explica-lo que eu não o ouvira realmente, eu não ouvira ele pedir-me para ir ver as horas no velho carrilhão que ficava lá na sala. Só sei que ele ficara muito bravo comigo neste dia.
Mas nada podia fazer mais e aos poucos toda aquela magia do lugar devolveu-me a alegria novamente e até hoje sinto saudades do velho Ipê.
sexta-feira, agosto 01, 2008
Lembranças de vovó.

Algumas fazendas, poucas na região, possuíam um gerador movido por uma roda d água, como o da fazenda de meus avós materno.
A usina ficava nos fundos da fazenda, cerca de uns seiscentos metros abaixo, era alimentado por água do córrego represado que fora desviado para que passasse no terreiro, do lado da cozinha.
Quando mudamos para lá este córrego possuía suas margens irregulares e havia um pequeno volume de água represado e muita água escapando pela sua margem esquerda antes de chegar à barragem.
Lembro-me de vovó chamar meu pai logo depois de nos acomodar e falar:
- Walter eu queria que você acertasse as margens do córrego e a barragem aqui perto do terreiro e arrumasse as caixas de comporta para (¹) moinho, para a (²) usina elétrica e a do (³) carneiro.
Vou pedir para os camaradas carregar pedras para você refazer a barragem e calçar as margens, onde esta com vazamento, ta bom!?
Papai sempre fora um homem zeloso, não era seu ofício, havia voltado há pouco tempo de São Paulo onde trabalhou vários anos numa Mercearia, mas disse que faria sim e logo começou o serviço.
Eu tinha quase dois aninhos e gostava de ficar observando o que papai estava fazendo.
Em poucos dias o serviço estava pronto.
Ah como papai arrumou tudo bonito, gora sim dava gosto ficar sentado ali nas margens, tomar aquela água límpida e fresca o dia todo.
Ouvir o barulho d’água transbordando sob a barragem de pedra. Deitar ali na margem direita do córrego sob a mureta construída pelo papai. Eu passava horas lá observando os pequenos lambaris e girinos que pareciam não se importar comigo ali e se divertiam naquela água límpida e calma.
Havia na margem esquerda três comportas, conforme disse anteriormente, uma para o (¹) moinho, outra para a (²) usina elétrica e outra para o (³) carneiro.
Quando a água não estava sendo utilizada por nenhuma destas comportas ela transbordava por cima da barragem de pedra que papai havia refeito cuidadosamente. E a água seguia seu curso córrego abaixo em direção a casa do monjolo e depois vazava grota abaixo recuperando seu curso de origem.
Qualquer curso de água sempre me fascinou, principalmente aquele córrego o qual saciava minha sede e mais tarde serviu para sustentar minha primeira jangada, feita de tronco de bananeira, na qual passava muito tempo subindo e descendo seu leito, passando pelas margens sombreadas por galhos verdes repletos de amoras deliciosas.
Vez e outra dividiam o espaço com algumas cobras d água ancoradas as margens do córrego. Vovó dizia que cobra d’água não faziam nenhum mal então eu não tinha medo.
Quando chegava o anoitecer era a vez dos sapos que vinham em grupo e dispostos para o concerto. Era uma cantoria só !
Lá da cozinha, no “rabo” do fogão me aquecendo e ainda proseando com vovó ficava a ouvir os sapos lá fora numa animação só!
O concerto começara o tenor prevalecia sobre os demais, era um som que parecia dizer:
“ - joaaaaaão.. cê vaiii ?
- vouuuu!
- joaaaaaão.. cê vaiii ?
- vouuuu!
Ah, havia também um sapo que emitia um som que parecia da bigorna, era o sapo ferreiro como chamávamos pois parecia estar sempre batendo com o martelo em sua bigorna.
E isto se repetia até a madrugada chegar ao meio de outros sons, coaxo e piado de aves noturnas quando esta orquestra não era quebrada por uma raposa, cachorro do mato a espantar as galinhas no galinheiro na tentativa de roubá-las.
Então vovó corria porta a fora em socorro das crias e depois de segura que afugentara os intrusos ela voltava.
Reinando a tranqüilidade vovó voltava a beira do fogão, vovô já havia recolhido em seu quarto e nós ficávamos conversando mais um pouco, geralmente eu como sempre perguntando as coisas para vovó e ela tranquilamente respondendo.
De repente ela se afastava ia até o armário que ficava na dispensa pegava uma taça de leite e dizia:
- Adarto (*¹)... bebe seu leite com farinha antes de dormir.
Pegava a (*²) taça com leite e farinha de milho e com uma colher tomava aquilo com gosto. Depois tomava a bênção e ia dormir.
No dia seguinte tudo se repetia!
(¹) moinho – consiste de uma pedra bruta medindo cerca de 1m de diâmetro por uns 20 cm de espessura, com um furo de cerca de de 15 cm de circunferência ao centro.
Esta roda de pedra na horizontal sob um bloco plano de pedra girava triturando o milho que era colocado sobre o orifício central. Após moído o grão o mistura fina caia numa caixa que armazenava o produto. A Roda de pedra era movido por um sistema de engrenagem em combinação com a roda d’água.
(²) usina elétrica = Um pequeno gerado (motor) movimentado por uma roda d’água que gera energia (contínua) elétrica.
(³) carneiro = uma esfera metálica com seu bojo oco que ao encher de água movimenta um pino criando um sistema hidráulico de elevar a água até um reservatório. Muito utilizado no interior de Minas e Rio de Janeiro.
(*¹) Adarto = é a maneira que vovó me chamava assim como os demais empregados (camaradas) lá da roça.
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
Aconteceu comigo.
Mas como era sexta feira, tínhamos é que aproveitar máximo o final de semana enquanto a proxima não chegasse!
Saímos todos em direção ao estacionamento para nos dirigirmos aos nossos lares.
Como de costume às sextas feiras eu passo pela casa de meu filho Gabriel para levá-lo para Poá onde passa sempre o final de semana comigo.
O trânsito apresentava se moroso e congestionado, muita gente correndo para casa e pegar as rodovias rumo às praias ou outro destino qualquer, visto que a maioria das empresas não abrem no Carnaval.
Pouco antes de chegar em São Mateus, onde pegaria o Gabriel percebi que a luz vermelha acusava um super aquecimento do sistema de refrigeração do carro. Isso era grave, havia que se parar para resfriar o motor e verificar as condições.
_ Mas como e onde parar? - a avenida estava com enorme fluxo de carros e caminhões e não havia sequer um lugar para estacionar, nenhum Posto de Gasolina a vista.
A próxima saída, eu sabia, estava a mais de 500 m, não era bom arriscar, mas fazer o quê? Não havia outro jeito, segui em frente mantendo-me a direita!
Consegui sair da avenida e assim que alcancei a rua transversal parei na porta da primeira casa que eu vi que havia alguem.
Desliguei o carro, abri o capô e dirigi-me aquela casa!
Era uma senhora já de idade avançada que estava lá na lida doméstica, cuidando de alguns vasos de plantas na garagem.
Chegando ao portão vi que ela estava já entrando dentro da casa.
Chamei:
_ Senhora, senhora, pode fazer-me um favor?
Percebi que mesmo sem nada responder ela mostrara pronta a auxiliar-me, após ter narrado-lhe o que estava acontecendo com o meu carro.
Prontamente ela foi até a sala e retornou dizendo:
_ Vou abrir lhe o portão !
Percebendo a inocência da senhora fui logo dizendo-lhe:
_ Não minha senhora, não deve abrir assim o portão, nem me conhece?!
_ Eu quero apenas um vasilhame para eu levar a água e colocar no radiador, não precisa abrir o portão.
Assim ela concordou e trouxe me a vasilha com a água. Foi necessário mais outro galão que ela prontamente me arrumou
Ao término desta operação retornei para agradecer a bondosa senhora e devolver-lhe a vasilha.
_ Obrigado!
_ Muito obrigado e desculpe-me por ter pertubado a senhora;.
Foi quando ela sorrindo ela me disse com tom de voz firme e com um sorriso nos lábios.
_ Não. De modo algum!
_ Quem perturna é o "demo" ! (num tom mais sério)
_ E você... não é um "demo" !
Depois de ouvir estar palavras fiquei sem saber o que mais dizer .... virei-me e ainda disse mais uma vez:
_ Obrigado, muito obrigado!
E ao sair com meu carro dali, com o problema resolvido pude ainda vê-la pelo retrovisor de pé olhando me serenamente meu carro desaparecer.
Assim é a nossa vida, sempre aparece algo que acaba mexendo com a gente e essas coisas ficam por muito tempo em nossa memória. Principalmente as coisas boas, as pessoas que Deus coloca ao nosso redor para nos ajudar na hora de maior necessidade!
domingo, dezembro 23, 2007
Homem do Saco
Tinha pouco mais de um aninho de idade, meus pais moravam numa casa simples cercada por terrenos baldios. Lembro-me que não havia muros e nem cercas.
Ao lado de nossa modesta casa havia um terreno onde eu costumava brincar.
Certo dia estava eu brincando na areia quando de repente... Olhei para frente e deparei-me com uma imagem assustadora.
Vi a pouca distância um senhor caminhando lentamente pelo terreno, um pouco agachado, mas o que mais me chamou atenção era o enorme saco que levava nas costas!
Num desespero tremendo gritei por minha mãe:
- Mãeeeeeeeeee ! Mãeeeeeeeeêêê!
E comecei a correr em direção a porta de minha casa sem olhar para trás!
Foi ai que deparei com minha mãe assustada vindo ao meu encontro.
- Que foi menino!?
- o homem do saco!
Repeti assustado:
- O homem do saco mãe !
Olhando assustado para trás, já amparado por mamãe pude perceber o sorriso inocente, daquele homem que tanto me apavorou, olhando para minha mãe sem saber o que dizer.
Foi quando ela sorrindo me disse:
- Não filho, este não é o homem do saco, ele está apenas trabalhando!
- Ele está procurando ferro velho e material usado para vender.
Apesar de estar agora tranqüilo sobre a proteção de mamãe continuei sem entender muito bem.
Afinal ele era o "homem do saco" - eu vi!
E acho que foi um dos maiores sustos que levei em minha vida.
Mais tarde aprendi que nem tudo o que nós vemos é a realidade!
Então fui aprendendo as aparências se enganam.
E que temos que ser cautelosos e nunca tomar decisões precipitada!
quarta-feira, maio 23, 2007
RECANTO DAS LETRAS
Inclusive vários audios (poemas falados).
Aguardo vocês lá.
terça-feira, janeiro 16, 2007
EU E O PRESIDENTE
Um dos fatos que lembro é o dia que o Presidente Jânio Quadros visitaria minha cidade, Campo Belo – MG.
O Ano era 1960, o mês não me recordo, acredito que tenha sido no início do lançamento da Campanha Presidencial.Lembro-me da “vassourinha” que foi seu mote de campanha e do jingle que ecoava o tempo todo pelas ruas da cidade e até mesmo no campo: “varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já 'tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!, e também se dizia "homem do tostão contra o milhão". recordo também dos cartazes com a foto do Jânio estampada por todos os lugares e vassourinha que eu mesmo exibia com orhulho. Mesmo tendo apenas 9 anos gostava de ver meu avô comentar e discutir política com seus amigos fzendeiros principalmente na época de Getúlio Vargas quando mandou cortar os cafezais, lembro-me muito bem do meu avô revoltado com a situação política na época.
Havia o tio Cristiano que estava sempre metido com grupos políticos da região, fora até vereador na década de cincoenta e lembro-me bem da rivalidade entre seus opositores. A UDN (União Democrática Nacional) era um partido forte na época. Muitas vezes deparava-me com tio Cristiano reunido com seus aliados e surpreendia-o muitas vezes em discussões efusivas e com frequência falavam da UDN. Recordo certa vez passando em frente ao sobrado onde estava reunido com partidários ao me ver deixou o grupo e veio todo sorridente me ver e me abraçar lá na calçada por onde passava.
Os meus tios avós falavam muito sobre Jânio Quadros que seria com certeza o novo presidente do Brasil.
Certo dia ouvi a notícia sobre a visita do candidato a presidência em nossa cidade! Fiquei atento a conversa e logo percebi que todos iriam numa carreata esperar o Jânio Quadros no Campo de Aviação que na época fica cerca de doze quilõmetros no lugarejo chamado Santana do Jacaré nome de um afluente do Rio Grande que corta o Município do Porto dos Mendes, onde residia o tio Cristiano e a família toda por parte de meu pai. Na época costumava ficar o tempo todo na casa da minha bisavó, casa do tio Juarez onde normalmente se reuniam diariamente todos os tios. Não poderia deixar de ouvir os comentários sobre os preparativos da carreata que aconteceria no dia seguinte e logo quis saber se eu poderia ir junto.
- Lógico que você pode ir Adauto – respondeu logo a tia Arlete.
Fiquei muito feliz e mal podia esperar para acontecimento inédito, ia conhecer o futuro presidente do Brasil e vê-lo chegar de avião no Campo de Aviação.
Todos os meus tios possuiam um Ford 29 que na época era chamado de “furreca”, igual a este da foto.O tio Renato, o tio Gumercindo e o tio Mário sempre iam na fazenda da vovó e deixavam estacionado debaixo do velho ipê na porteira em frente a sede. Eu gostava de ficar lá na frente do carro olhando o ipê florido através do vidro do parabrisa da “furreca”. Parece que as flores, os galhos e as nuvens formavam um cenário maravilhoso, era como se fosse um filme, uma miragem!
Mas voltando a carreata, saimos todos em fila pela estrada de terra rumo ao campo de avição, antes mesmo de sair da cidade todos apontaram para o céu onde o avião do Jânio começava a sobrevoar e o cortejo se apressava ao destino.
Podia perceber a cor do avião pintado já com as cores da bandeira nacional, verde e amarelo. Logo chegamos no campo de aviação e vimos o bimotor que trazia o candidato aterrisar naquela pista de terra deixando para trás uma nuvem de poeira.
Pouco depois os carros, todos iguais (não haviam muitos modelos diferentes) estavam já a postos para retornar a cidade, ao hotel Maracanã onde o Jânio Quadros ficaria hospedado.
Como o Hotel era de meus tios, acampanhei a comitiva até o saguão do hotel e pude estar junto com o ilustre visitante e acompanhar a movimentação mesmo sem se dar conta do assunto.
Muitos anos depois, em 1985 me encontro novamente com Jânio Quadros - agora candidato novamente, mas à Prefeitura de São Paulo.
Estive juntamente com o Gutierres, amigo pessoal do Jânio, durante uma visita ao Diretório do PDB em Itaquera e lá pude estar com ele e conversar sobre sua visita a minha cidade natal há trinta e cinco anos atrás. Disse-me que recordava sim desta visita de campanha e da cidade.
Depois de uma conversa, num gesto de intimidade pega no bolso de minha camisa um maço de cigarro e diz:
- Vou pegar um cigarro seu e assim o fez sem cerimônias.
Não pude esconder um certo desconforto pois o cigarro que eu tinha no bolso era uma marca comum, dos mais baratos, mas isso não lhe pareceu nenhum problema e continuamos ainda conversando sobre educação e cultura além da necessidade de apoio a sua candidatura, claro.
Depois posamos para algumas fotos e durante o resto de sua campanha pude juntamente com o Gutierres acompanhá-lo por muitos bairros da Zona Leste.
A partir dai, mesmo depois de seu mandato de Prefeito, pude participar de vários encontros com o mesmo.
Cheguei a participar também do MRP - Movimento Renovador Político fundado por ele e comandado pelo Dr. Paulo Zing. Eram reuniões um tanto eruditas que se
falava ainda de grupos comunistas atuantes no Brasil na década de oitenta e da necessidade de combatê-los e até assumindo discursos bizarros.Lembro-me que nesta época estavm sempre nas comitivas o cantor Moacyr Franco entre outros fiéis seguidores do Ex-Presidente Jânio Quadros.
E sinto-me honrado por ter em vários momentos participado de alguns momentos com esta ilustre figura e guardo com carinho e envaidecido de possuir um “bilhetinho” caraterística marcante deste político. Sempre que queria passar alguma mensagem escrevia um “bilhete” !
Assim guardo mais esta recordação de que “eu conheci pessoalmente Jânio da Silva Quadros” .
Este vídeo retrata a época que retrata as minhas lembranças.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Uma aventura no Quartel
Um dos motivos que me atraiu foi a Cavalaria, sempre gostei de cavalos e por isso achei que ia me dar bem.
Realmente, desde os primeiros dias isto foi comprovado. Mas as atividades eram muito diversificadas e os cavalos ocupavam apenas uma parte de nossas tarefas.
Recebi o meu cavalo, não era aquele cavalo, mas logo me entendi com ele e por um ano fomos bons amigos. Conheci seus pontos fracos e ele, acredito, os meus também.
Os exercícios eram coisas fáceis para mim já acostumado com montaria desde criança. Apenas a equitação foi novidade. Saltar obstáculos, trincheiras, etc. Mas logo eu e meu cavalo entramos no ritmo e não houve problemas!
Passado alguns meses foi anunciado que o Quartel todo participaria de uma Manobra Militar em conjunto com a Aeronáutica na Fazenda dos Ingleses!
Sabia que seria um exercício de guerra! Apesar de tudo fiquei dividido entre a aventura de ir e a de escapar de tal façanha!
Foi ai que tive uma idéia!
Procurei o meu superior imediato, o Sargento Gregório e Wantuil e comuniquei, como era estudante na Escola Pública da cidade não poderia faltar à semana de provas!
(Na verdade não era semana de provas, apenas um pretexto para escapar e ficar na cidade)
Apresentei-me ao Sargento, bati continência e disse:
- Sargento Gregório, eu estou com um problema, não poderei faltar às provas da semana!
Com olhar severo, olhou-me e disse:
- Descansar soldado!
- À vontade!
- Vou comunicar ao Major e logo trarei a resposta para você. Mesmo assim continue com os preparativos.
- Obrigado Sargento, disse eu.
Passado algum tempo veio em minha direção o Sargento Gregório, para o qual me coloquei em continência.
- Fique a vontade soldado.
- O major Lara não lhe dispensou das manobras, porém após os exercícios uma das viaturas o trará para a cidade e no dia seguinte o levará ao campo de treinamento!
- Obrigado Sargento - e logo me desfiz da continência.
Chegou o dia da partida, às seis horas o soldado corneteiro toca o toque de alvorada e toda a tropa já com suas mochilas corre em direção ao Rancho para a primeira refeição do dia e logo em seguida partir.
A viagem foi longa, os pelotões seguidos de seus batedores seguiam em fila indiana trotando pelas colinas e serras verdejantes.
Ao atravessar a Rodovia Dutra, uma operação foi montada em conjunto com a polícia Rodoviária para a Tropa passar!
Armamentos, munições e rações eram carregados por cavalos que seguiam a tropa.
A viagem corria tranqüila até o momento que veio um:
- Alto Companhia!!!
Correu a notícia alvissareira de que um incidente havia ocorrido com um dos Pelotões.
Logo vimos um dos veículos de retaguarda passar pela tropa, era um carro de ambulância.
A notícia logo veio.
- Pessoal um dos cavalos foi atingido por uma mina (de festim)!
A exclamação ecoou pelas colinas num só “ ohhhhhh ”.
A indagação permaneceu no ar.
- Quem estaria no cavalo ?
- O soldado também se feriu!?
- Foi grave, o que realmente acontecera!?
Felizmente o incidente apenas feriu o cavalo que pisou numa das minas espalhadas no trajeto. Foi colocado no caminhão ambulância e levado ao Quartel para cuidados médicos!
- Ufa ! – todos respiraram aliviados!
A viagem continuou tranqüila, às vezes até cochilávamos em cima dos cavalos visto que estávamos marchando todos em fila indiana.
Passamos por uma fazenda com imensos laranjais e logo ao me aproximar me estranhei ao ver muitos soldados, dos que estavam à frente, invadindo o laranjal.
Alguém me encorajou a fazer o mesmo dizendo:
- Não se preocupe, todo prejuízo do laranjal é ressarcido pelo Exército.
Foi ai que tranquilamente eu desci do meu cavalo, amarrei-o numa árvore e me uni aos demais que estavam a saborear doces laranja e outras frutas.
Depois de um bom descanso recebemos ordem para entrar em forma e marchar.
Passamos por algumas ruínas de velhas senzalas e fomos comunicados que ali há poucos dias o Exército havia desmantelado alguns guerrilheiros de São Paulo. (Era plena ditadura militar da Revolução de 1964).
Logo chegamos a Fazenda dos Ingleses. Passamos em frente à sede e depara com um senhor magro de boné sentado em sua cadeira de balanço a espreitar a tropa que passava.
Apenas alguns oficiais rumaram em direção a varando onde estava aquele senhor. Parece que para cumprimentá-lo, pois a fazendo a ele pertencia.
Ficamos sabendo depois que aquele senhor de aparência esquia e tranqüila fora um oficial do Exército Britânico.
As primeiras atividades foram montar o Acampamento. As barracas eram utilizadas por dois soldados cada uma.
À tarde rápida chegou e antes mesmo de terminarmos as tarefas ouvi o meu nome ser chamado por um dos oficiais!
- Soldado 294 favor apresentar-se!
- Soldado 294, Neves apresentando! (Corri e coloquei-me à ordem.)
Mas uma dúvida surgiu logo em seguida. Em forma e batendo continência parei-me em frente ao oficial perguntando.
- Senhor! E como faço com o meu cavalo.
Numa rápida atitude o Tenente olhou para o primeiro soldado a sua frente e pediu que além do seu cuidasse também do cavalo 132, o meu!
Fiquei sem palavras, pois era um de meus amigos e sabia que ele ficaria com responsabilidade dobrada. Mas o que eu poderia fazer. Ordens são ordens!
Logo embarquei numa viatura que saiu ainda antes do sol se por e em pouco tempo estava na cidade longe daquele território de treinamento de guerra.
Não pude deixar de lembrar dos colegas que lá no campo estavam a enfrentar uma noite repleta de incidentes.
Mas este segredo eu tinha que guardar, não podia mais voltar atrás.
E assim perdurou a situação durante toda a manobra na Fazenda dos Ingleses. De dia eu participava dos exercícios e a noite ia para a cidade numa viatura do Exército especialmente destacada para isso!
Esta é uma das doces lembranças que o tempo não apagou.
Aconteceu no Natal
Era já véspera da tão sonhada Noite de Natal.
Eu absorto em meus pensamentos dirigia meu carro rumo à casa de minha irmã onde encontraria a família já reunida. O trânsito estava apressado, todos a caminho de suas casas ou indo para encontrar os amigos, os parentes para com eles festejarem.
De repente, num cruzamento entre duas avenidas movimentadas o sinal fecha e eu parei meu carro a espera do sinal verde.
- Moço! Moço!
Surpreendi-me com aquela voz de criança do lado de fora. Deparei-me com uma menininha, cerca de 8 anos, mal trapilha com uma caixa na mão.
- Moço, compra uma bala. Compra moço!
Eu fora pego de surpresa, um pouco assustado ao meio daquele corre-corre e respondi de imediato:
- Meu amor, eu não tenho dinheiro trocado!
- Ah moço compra!
Olhei dos lados, apenas aquela garotinha estava ali ao meio dos carros, não havia mais nenhum ambulante, nenhum vendedor de farol.
De repente surpreendo-me com a atitude daquela menina.
- Moço, pega a metade. Fica com esta metade e eu fico com a outra!
Fiquei sem palavras com aquele gesto, com as mãozinhas estendidas sobre o vidro de meu carro entreaberto. Titubeie, mas não poderia fazer tal desfeita com o gesto daquela criatura inocente!
- Muito obrigado meu amor.
Mal tive tempo de vasculhar o bolso em busca de algum trocado, fui abalado pelas buzinas impacientes dos carros que estavam atrás do meu.
Então me dei conta do farol que já estava verde e tinha que prosseguir mas antes olhei para os lados e não vi mais a menina de vestido claro e surrado. Desapareceu... e eu fui obrigado a prosseguir, pois todos estavam pedindo passagem em meio ao trânsito.
Mal consegui conter a emoção daqueles instantes atrás! Segui meu trajeto ao encontro dos meus familiares e anos já se passaram, mas a imagem daquele anjo permanece em minhas lembranças!
Por onde andará tal criança? Uma simples mortal ou um ser celestial!?
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Os anos cinqüenta...
Foi no ano de 1950:
- Que apareceu a primeira televisão no Brasil deixando as pessoas maravilhadas diante de uma telinha - vendo cenas serem apresentadas ao vivo, de improviso!
- Foi um ano Santo declarado pelo Vaticano.
- Os primeiros cartões de crédito chegaram ao Brasil, não como os de hoje, mas de papel!
- Nos lares brasileiros surgem muitos inventos que vieram ajudar as mulheres nos seus afazeres.
- A máquina de lavar automática;
- a enceradeira;
- a batedeira elétrica;
- o rádio portátil a pilha, o maior sucesso em todo o país. Mesmo nos mais longíguos recantos podia se ver alguém com um radinho no ouvido!
- O Disco de Vinil, o LP Stéreo;
- o bambolê, alegrias das meninas;
- o robô mecânico sonho de todo menino e quantas outras invenções mais nasceram nestes anos cinqüenta!
Ah e o mais importante não poderia deixar de falar - um nascimento (risos) importante:
o ano que cheguei aqui neste Planeta aos 24 de Fevereiro!
quarta-feira, dezembro 06, 2006
MEU CÃO INESQUECÍVEL
Mas na infância o meu primeiro cão ( aliás era o cão dos meus avós ) chamava-se Norte. Era um cachorro grande para um menino de dois ou três anos de idade. Eu podia até andar em cima dele, coitadinho, agüentava sem reclamar!
Era muito dócil vivia perambulando pelo casarão, pela cozinha, sala, varanda e ajudava meu avô na lida com o gado. Cachorro muito esperto, ia em busca da vaca mais arredia e trazia ao cural.
Uma coisa que me lembro muito bem era o seu sumiço diário, a certa hora do dia ele desaparecia. Depois de algum tempo descobri o que ele fazia todos os dias!
Ele ia até a fazenda do tio Orozimbo todos os dias ficava lá um pouco em busca de agrado e depois antes do final da tarde retornava para a fazenda da Mata. Era um percurso de cerca de dez quilômetros ida e volta.
Isto já era natural, todos sabiam, só eu que demorei um pouco para descobrir sua façanha.
Certo dia meu avô, a noitinha, chegou na cozinha onde estava minha vó e perguntou:
- Anita, você não viu o Norte ?
- Não, por quê, ele não voltou lá do Orozimbo?
- Não, costuma estar sempre aqui a esta hora, deitado lá na porta da sala, na varanda.
Ficamos todos ansiosos e ficamos a espera que no dia seguinte encontrássemos na porta abanando seu rabo.
A noite passou e logo pela manhã, com a chegada do retireiro veio a notícia.
- Madrinha Anita, o Zé encontrou o Norte morto lá na porteira, debaixo o velho Ipê.
A tristeza foi geral. Mas como morreu, o que lhe acontecera?
Meu avô logo veio com a resposta.
_ Anita, o Norte foi mordido por um cascavel, vi as marcas no pescoço dele.
Certamente ao passar lá pelas bandas do Morro da Onça deparou-se com um Cascavel, apesar de ter lutado mal deu para chegar até aqui.
Estava ele lá ao lado do Ipê, na porteira estirado no chão - morto. Inchado e no pescoço estava a marca indelével das presas da serpente.
Ele se foi, mas a sua lembrança paira até hoje em minha memória!
segunda-feira, novembro 27, 2006
Mistério na Mata
Ah quantas estripulias, quantas aventuras lá vivenciei !
Nos primeiros dez anos a fazenda era muito freqüentada ainda pelos irmãos de Vovó, o tio Juarez, Tio Neném, Tio Mário, Tio Júlio, Tio Renato e a própria Vovó Dolores, Mãe Vó como a tratávamos. Os primos Nardinho, Diogo freqüentavam mais a casa. O casarão era estilo colonial, havia muitas dependências e por isso era possível receber muitos hóspedes.
Gostava quando minha avó Anita recebia umas amigas do Rio; Era um pessoal da cidade e eu ficava espiando de longe aqueles hábitos diferentes dos que eu conhecia.
Mas sentia mesmo a vontade quando nas férias reuníamos os primos lá Dalmilho, Jane, Raquel, Ariete, Denise, Antonio, entre outros. Mas estes citados eram os da minha época que mais compartilhávamos as aventuras e as brincadeiras. Minha irmã Bernadete era novinha e o Pascoal ainda muito criança nem podia acompanhar-nos em todo lugar.
Quando iam embora ficava aquela monotonia... não restava outra opção de vez em quando compartilhar algumas brincadeiras com os filhos dos camaradas.
No final da tarde chegava da roça acompanhados do pai e de outros funcionários o Carlinhos, o Toninho, e o José, (Zé) mas eram crianças de outro nível, muito simples e chegavam cansados mal podiam brincar.
Na fazenda, quando a tarde caia vovô corria para o lado do rádio, as vezes acompanhados por algum empregado e ficavam ouvindo programação de Música Sertaneja para irritação da minha avó que não gostava. Depois hora da novela no Rádio, minha avó e mamãe iam para o lado do Rádio enquanto meu avô se retirava, de vez em quando indo jogar truco lá na sala com os amigos.
Mal a noite se firmava todos começavam a retirar-se. Dormíamos cedo, pois a lida no campo iniciava-se cedo antes do nascer do sol.
A vida lá na fazenda foi modificando se radicalmente, o movimento, a lida com o cafezal, foi cada vez mais diminuindo. Meu pai levou-nos para um Sítio que herdara lá no Porto dos Mendes, no Morro Grande, meu tio To alba estudava fora, só vinha para a fazenda nas férias. Eu, sempre que podia ia passar uns dias lá e o meu quarto preferido era o do meu tio Toalba, pois ele dava as janelas todas para a frente e para o Curral, podia-se acordar cedo com a movimentação dos retireiros ao trazer as vacas para a ordenha.
Certa noite, estávamos só nós três, meus avós e eu. Como não havia companhia me recolhi cedo, ouvia cada badalado do velho carrilhão lá na sala próximo ao meu quarto. Fora isso e algumas vezes o som de algum pássaro noturno era silêncio total.
Podia-se ver as estrelas pela janela que eu sempre deixava aberta para contrariedade de vovó que ia nas pontas do pé e as fechava e eu da mesma forma as abria depois de algum tempo sem fazer ruído.
Era uma noite tranqüila, meus avós deviam star em sono pesado e eu ainda estava meio acordado pensando e olhando para as estrelas lá no firmamento.
De repente - ouvi a trava de madeira ser retira da porta da sala e ser colocada no canto. Como era piso de assoalho, e com o silêncio da noite ouvia se nitidamente o som. Levantei a cabeça, sem sair de minha cama, procurei ver se era meu avô ou minha avó que fora ver algo. Não podia evitar nada a não ser a porta acabando se abrir por total uma das partes.
Um silêncio profundo se fez até que ouvi a minha avó lá de seu quarto falar:
- menino! O que está fazendo ai ? Por que abriu a porta!?
Eu mal pude responder... balbuciando disse lá da minha cama mesmo;
- não fui eu, não sai da minha cama! E virei-me do lado obrindo-me e ficando quieto sem se mexer até que o sono veio!
Lembro que meu avô se levantou, fechou a porta, colocou aquela trave de madeira e saiu resmungando. Creio que pensara que fora eu fazendo arte.
Pude ouvi-lo a caminho de seu quarto;
_ Ara.. esse menino !...
No dia seguinte, levantei-me, meu avô já havia ido para a roça e encontrei minha vó lá diante do fogão a lenha!
Antes mesmo que ela disse algo perguntei-lhe:
- Vó, o que foi aquilo ontem?
- Não fui eu que abri a porta não!
Calmamente ela respondeu acalmando-me.
- Não se preocupe menino, deve ter sido papai, ele sempre aparece por aqui.
- No final de semana eu vou fazer uma visita lá no "Centro" e ver o que ele queria. ode estar precisando de oração.
E assim passou a semana e quando chegamos a cidade foi ela ao centro e contou-me depois que realmente era o Vô Abílio, ele sente saudades e vem sempre visitar a casa.
Mas está tudo bem sim com ele! - disse com toda a naturalidade. Acho que por isso nunca me assustei com fatos inexplicáveis. Aceito-os e acredito que: - " entre o céu e a terra há muito mais coisa que nossa vâ filosofia possa conhecer! "
Obs.: Vô Abílio faleceu no mesmo ano que eu nascera, eu não cheguei a conhecê-lo. Um porta retrato que vovó possui dele me chamava os seus olhos azuis, bem azuis.
Inocência na luz vermelha
No meio do ano eram pouco mais de 15 dias então passava em São Paulo com meus pais e irmãos. Mas as férias de final de ano, as mais esperadas ia para São Paulo e depois de ficar alguns dias com meus pais, geralmente depois do Natal ia com minha mãe e meus irmãos para a cidade natal, Campo Belo.
Revia os primos, os tios, e a maior parte do tempo queria passar na roça, na fazenda com meus avós. Como eram gostosos estes dias que lá passava.
Finais de semana íamos todos para a cidade, não que eu gostasse, pois na fazenda era muito mais divertido, mesmo quando só eu estava lá. Andava a cavalo, nadava muito, escalava morros e sem falar na fartura de frutas que lá havia.
Quando estava na cidade costumava passar algum tempo em companhia dos primos e principalmente do Nardinho, um primo em segundo grau, mas para mim todos eram primos. Ele era um pouco mais velho que eu e costumava me levar para um restaurante em frente a Praça da Matriz, esquina com a Afonso Pena e lá entre conversas e animação íamos saboreando um torresminho e tomando uma cerveja. Não estava acostumado a tomar cerveja, mas pela sua insistência eu o acompanhava.
Nardinho era uma destas pessoas que conhecia todos da cidade e apresentava-me a todos os seus amigos.
Certo dia ele disse-me - hoje a noite passo na casa da vó Anita para te pegar, quero levá-lo a casa de uma amiga.
Como eu gostava da companhia do primo não poderia recusar o convite.
A tardezinha, já anoitecendo fomos nós em direção a Estação Ferroviária à visita combinada.
Chegamos a uma casa próximo a Estação onde ele foi entrando e cumprimentando a todos.
Entramos por uma sala ampla, com algumas mesinhas e cadeiras onde algumas pessoas conversavam, geralmente casais. Logo encontrou uma moça a qual fui apresentado.
- Este é o Adauto, meu primo ele está estudando no Seminário - disse ele a moça.
Em seguida me vi sentado a uma mesinha com aquela moça que começou a conversar comigo e a perguntar-me sobre a vida lá no Seminário. Como era, o que eu fazia, etc...
Logo notei o desaparecimento do meu primo e continuei lá naquela sala em penumbra, havia algumas lâmpadas vermelhas tornando o ambiente um tanto reservado.
Não faltaram assuntos, a moça parecia curiosa a perguntar-me sobre o meu dia a dia e eu calmamente e inocentemente continuei a responder a tudo até que começou a faltar-me assunto e ela já meio sem graça também silenciou. Vez ou outra lançava-me um olhar e um sorriso.
Indaguei-me sobre o Nardinho, onde teria ido e ela calmamente me acalmou dizendo que logo estaria lá de volta. Tratou de reforçar o prato de petiscos e pedir mais cerveja.
Já se fazia tarde, minha ansiedade e meu desconforto ali aumentava.
Foi ai que surgiu o Nardinho acompanhado de outra moça que da mesma forma da primeira apresentou-me como seu primo que estudava no Seminário.
Perguntou a minha anfitrião se gostou de mim, esta respondeu que sim meia encabulada também.
Despedimos-nos e fomos para casa, minha mãe e minha avó devia já estar preocupadas comigo.
Caminhamos meio em silêncio sem ao menos comentar sobre a visita e cada qual foi para sua casa como se nada tivesse acontecido.
Minha mãe e minha avó nada perguntaram e logo fui para o meu quarto ainda sem saber exatamente o que era aquele lugar que conhecera. Achara sim um tanto estranho, pois a casa apesar de pessoas aparentemente felizes, comendo e bebendo, achei-as um tanto frias para ser uma casa e de amigas do Nardinho.
Passou-se um ou dois dias... pude ouvir a tia Arlete - que era uma daquelas pessoas alegras com uma risada contagiante e forte - contar para o tio Juarez, outras tias e amigas que o Nardinho havia me levado a Zona.
Foi ai então que compreendi o motivo daquele convite. Mas continuei na minha inocência sem ao menos ter deixado ser iniciado.Fiquei morrendo de vergonha, encabulado e evitei confrontar-me com os tios por um bom tempo, se contaram para minha mãe não sei, porque nunca ouvi comentário por parte dela.
Nunca mais falamos sobre o assunto e muitos anos se passaram, mais de 40 anos, outro dia comentei o episódio pela primeira vez com o Nardinho durante uma conversa com ele, no Messenger, visto que mora em Brasília desde aquela época e nunca mais o encontrei, somente agora pela internet.
- Ah, isso não foi nada, das coisas que eu aprontava esta foi a menor. - disse-me ele !
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